Era uma das mais importantes manchas florestais ribeirinhas de Vila Real. Situava-se nas margens do rio Corgo, entre a Ponte da Timpeira e as piscinas municipais, e foi devastada, de uma forma que pode ser irreversível, para a construção de um caminho pedestre. Ironicamente, o atentado foi concretizado pelo programa Polis, que tem como objectivo a requalificação ambiental dos espaços. A sociedade Polis de Vila Real alega que "nada está irremediavelmente perdido".
Foi com base no "elevado interesse ambiental" da mancha arbórea ribeirinha existente entre as piscinas municipais e a Ponte da Timpeira que a sociedade Polis de Vila Real justificou o projecto para a construção do caminho pedestre, "natural" nesta área. Contudo, a obra que agora está em execução pode ditar o fim do ambiente natural que, afinal, se prometia preservar. Isto porque, para a construção do caminho projectado, com dois metros de largura, o empreiteiro responsável, Alberto Couto Alves, SA, abriu largos estradões em terra batida para a passagem de camiões pesados e deslocou para o local maquinaria pesada, como uma retroescavadora de placa giratória, destruindo assim uma cortina vegetal com largas dezenas de anos, composta, entre outras espécies, por salgueiros, freixos e amieiros.No local das obras, saltam ainda à vista aterros contínuos sobre o rio Corgo e o responsável pela obra não fez qualquer talude de contenção de terras para impedir que estas derramassem pela linha de água dentro. Como resultado, além da destruição de margens, é visível, ao longo do leito do rio, uma elevada quantidade de sedimentos.Foi este cenário de destruição que Rui Cortes, professor catedrático da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, especialista na área do Ambiente, encontrou quando, recentemente, foi ao local, alertado por um aluno seu, que acabava de fazer uma denúncia à Brigada do Ambiente da GNR.
"Quando vi isto, fiquei em pânico", conta o universitário na visita que esta semana efectuou ao local com o PÚBLICO."Isto era uma zona densíssima de floresta ribeirinha, com uma galeria arbórea muito bem estruturada e com elevado valor em termos de biodiversidade. Era uma das zonas mais importantes do ponto de vista da conservação... Agora é um estradão! O Polis rebentou com o que havia de mais precioso na cidade de Vila Real", dispara o catedrático
Há cerca de dois anos, Rui Cortes liderou o estudo de caracterização de "habitats" realizado pela universidade transmontana para o Polis sobre a área agora em risco, documento que concluiu ser esta uma zona de "especial interesse conservacionista". E foi precisamente por recear prejuízos ambientais que o universitário, que integra a comissão de acompanhamento do programa Polis em Vila Real, se chegou a opor ao projecto de construção de um caminho, mesmo que pedonal, na zona em causa.Cortes admite, contudo, que o projecto estava "relativamente bem feito" e que incluía medidas de salvaguarda e minimização de impacte ambiental da obra, além de um estudo de incidência ambiental. A obra conjugava, assim, alegadamente, todos os factores para correr bem.Não correu assim e o problema, segundo o universitário, teve a ver com a "escolha da maquinaria errada" e a falta de medidas de protecção de margens. Rui Cortes, cuja área de especialização é precisamente a requalificação de rios - acaba de publicar uma obra sobre o tema -, argumenta que a construção de um caminho pedestre numa área sensível do ponto de vista ambiental "tem que ser sempre uma intervenção cirúrgica" e em "função da topografia do terreno". Segundo diz, a actual destruição provocou prejuízos ambientais "incalculáveis", além de deixar os próprios terrenos mais permeáveis à erosão e à invasão de infestantes. Acresce, sublinha, que a sedimentação do rio "afectará a desova" dos peixes. E o professor garante que a recolonização vegetal é "completamente impossível". "É claro que podem dizer que vão recuperar isto no final da obra, mas nunca se recupera uma galeria ribeirinha virgem", remata.